O Ceará pretende retomar a produção de algodão em escala comercial com uma variedade de fibra longa que, segundo representantes do governo estadual, tem potencial para competir com o algodão egípcio e o pima peruano. Testes realizados pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) validaram a qualidade da fibra, considerada adequada à indústria têxtil fina, especialmente à produção de peças como camisas.
Para viabilizar a retomada da cultura e ampliar o fornecimento de matéria-prima para as indústrias têxtil e de confecção do Estado, o governo investiu R$ 5 milhões na compra de sementes selecionadas.
O projeto foi apresentado durante o Congresso Internacional 2026 da Indústria Têxtil, realizado na quarta-feira (14), no Centro de Eventos do Ceará, em Fortaleza.
Plantio será ampliado para 100 municípios
A distribuição das sementes e a nova janela de plantio estão previstas para janeiro de 2027. A iniciativa deverá envolver produtores de 100 municípios cearenses, ampliando o projeto-piloto realizado no início de 2026, que contemplou 18 cidades.
A expansão prioriza regiões como Sertão Central, Inhamuns, Sertão de Crateús, Vale do Jaguaribe, Centro-Sul e Cariri.
Segundo o secretário executivo do Agronegócio da Secretaria do Desenvolvimento Econômico (SDE), Silvio Carlos, as condições de luminosidade do Ceará favorecem a produção de uma fibra longa e de qualidade, com potencial para atender segmentos mais exigentes da indústria têxtil.
A proposta é integrar o cultivo do algodão herbáceo às etapas de fiação, tecelagem e produção de vestuário no próprio Estado, fortalecendo a cadeia produtiva e reduzindo a distância entre a produção agrícola e a indústria.
Governo quer recuperar produção de algodão
De acordo com o secretário do Desenvolvimento Econômico, Fábio Feijó, o projeto-piloto realizado em 18 municípios abriu caminho para ampliar a produção. A iniciativa busca recuperar uma atividade que já teve grande importância econômica no Ceará.
A cultura do algodão foi fortemente afetada no início da década de 1990 pela disseminação do bicudo-algodoeiro, praga que prejudicou as lavouras e contribuiu para o declínio da produção no Estado.
A nova etapa utiliza estudos da Embrapa e sementes de algodão herbáceo de alto rendimento. Silvio Carlos também destacou o potencial econômico da cultura e afirmou que o cultivo pode consumir menos água e oferecer retorno financeiro superior ao de outras lavouras, como milho e soja, dependendo das condições de produção e comercialização.
Além de recuperar a atividade agrícola, o governo pretende estimular a instalação de pequenas indústrias no interior, ampliando a geração de empregos e distribuindo os investimentos para além dos principais centros industriais.
Programa pretende conectar campo e indústria
Em parceria com a Vicunha Têxtil, o governo estadual prepara o programa “Do campo ao guarda-roupa”. A iniciativa pretende conectar a produção de matéria-prima, a atividade industrial e a formação de mão de obra qualificada no interior do Ceará, com apoio do Sistema Fiec e da Fecomércio.
A estratégia busca fortalecer os setores têxtil e de confecção e incentivar a instalação de unidades produtivas de menor porte em municípios do interior.
A expectativa é ampliar as oportunidades de trabalho e agregar valor ao algodão produzido no Estado, fazendo com que parte das etapas de transformação da matéria-prima ocorra no próprio Ceará.
Setor têxtil enfrenta concorrência das importações
Apesar das perspectivas de expansão, a indústria têxtil brasileira enfrenta desafios relacionados ao consumo interno e ao crescimento das importações.
O diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel, destacou a importância do Ceará como polo produtivo nacional, tanto na área têxtil quanto na confecção.
Segundo os dados citados pela entidade, o consumo interno do segmento recuou 1,4% nos 12 meses analisados, enquanto as importações convencionais realizadas em contêineres cresceram mais de 40% em volume. O volume de pequenas encomendas do comércio eletrônico também avançou 80% nos três meses seguintes às mudanças na cobrança da taxa de importação.
Diante desse cenário, a Abit defende investimentos em inovação e produtividade para fortalecer a indústria nacional e ampliar a competitividade da cadeia têxtil cearense no mercado internacional.