"Se vale a pena viver e se a morte faz parte da vida, então, morrer também vale a pena" é o que diz a frase atribuída a Immanuel Kant, filósofo alemão do século XVIII, cuja reflexão contraria a ideia que assusta muitas pessoas: a morte. Na obra, "Os Dois Morrem no Final" do escritor americano Adam Silvera, vemos a história fictícia de dois garotos que descobrem que irão morrer em menos de 24 horas. O misto de emoções que bagunça a mente dos personagens não é um cenário distante do que acontece na vida real. Falar sobre a morte ainda é um assunto que divide opiniões, pois enquanto para uns, a "passagem" desta vida para outro plano é algo tenebroso, para outros, é sinônimo de recomeço, em alguma das vezes, sustentados por crenças religiosas. A morte seria, como reforça a frase de Kant, um momento como outro qualquer da vida. 


Em um levantamento feito pelo Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep), em sua última atualização, aponta que mais da metade da população brasileira concorda que não se sentem prontos para a morte, e que muito menos conversam sobre isso no cotidiano. Em uma observação mais detalhada, observa-se que pessoas com mais de 55 anos são as que mais falam sobre o assunto. A porcentagem cai com a diminuição da faixa etária: de 45 a 55 anos, 29% falam sobre o tema no dia a dia; de 35 a 44 (26%); de 25 a 34 (26,4%); e de 18 a 24 (21%). Esses números revelam que o medo da morte não é apenas uma questão pessoal, mas também cultural e psicológica. A tanatofobia (termo que vem do grego, onde “thanato” significa morte e “phobos” está relacionado a medo) temor excessivo ou irracional da morte, ajuda a explicar por que tantas pessoas evitam o tema. De forma paralela, vivemos em uma era em que o medo de morrer convive com o medo de não viver o suficiente. Em 1996, o estrategista de Marketing Dan Herman, identificou pela primeira vez a Síndrome de Fomo (do inglês "fear of missing out") que consiste no medo de "perder algo" ou "o medo de ficar de fora". De certo modo, ela é o oposto da tanatofobia, pois, enquanto uma teme o fim, a outra teme não viver tudo antes que ele chegue. Portanto, concluímos que, ambos refletem, em diferentes níveis, a dificuldade humana em lidar com a finitude. 

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Mas, enquanto uma parcela da população sente aversão pelo fato da vida ter um fim, por outro lado, há um outro grupo que enxerga a morte não como um momento de tristeza, e sim, de conforto. No estoicismo, a morte é vista como uma parte natural e inevitável da vida, e que não deve ser temida, mas sim aceita com serenidade. Como citado anteriormente, muitos acreditam que é uma simples "passagem", de um plano para outro, apesar de toda a mudança que acontece, seja quando ocorre consigo mesmo, ou com alguém próximo. Essa percepção mais serena diante da finitude também aparece em diferentes reflexões literárias e filosóficas. Alguns autores dedicaram parte de suas obras a compreender como o ser humano pode lidar com a perda e ressignificar o luto, como cita o Psicólogo e Escritor Alagoano, Clemerson Silva, em sua obra intitulada 'A Saudade é o que resta de nós': " Leva tempo até que a ausência deixe de pesar como pedra nos bolsos e comece a se firmar como pedra no caminho; não para impedir, mas para orientar o passo". É importante considerar que a morte é um evento que causa impacto, independente de como você a enxergue. 


Falar sobre a morte sempre foi um tabu. Ainda assim, defendo que deveríamos tratá-la com mais naturalidade, afinal, é a única certeza que temos na vida. Encarar a morte como algo distante ou proibido apenas nos afasta da compreensão de que ela faz parte do ciclo natural da existência. Estar preparado para esse momento não significa desejá-lo, mas reconhecê-lo como inevitável. No fundo, acredito que, talvez o medo não esteja no fim em si, mas no desconhecido que o segue. Crenças e religiões tentam responder a essa dúvida ao sugerirem diferentes destinos para a alma humana. Mas, afinal, o que tememos de verdade: a morte ou o que vem depois dela?

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