A inclusão de estudantes autistas nas escolas brasileiras passou por mudanças importantes nos últimos anos. Embora o direito à educação e ao Atendimento Educacional Especializado (AEE) já estivesse previsto desde 2008, a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva (Pneei), instituída em outubro de 2025, ampliou a discussão sobre a permanência e a aprendizagem dos estudantes, e não apenas sobre o acesso às escolas.

No Ceará, os números mostram a dimensão desse desafio. Segundo levantamento realizado pelo Diário do Nordeste junto ao Ministério da Educação (MEC), as redes municipais têm 126.106 matrículas de estudantes da Educação Especial. Desse total, 89.828 são de crianças autistas. Cerca de 74,1% delas recebem Atendimento Educacional Especializado.

O AEE oferece atividades, recursos pedagógicos e estratégias que buscam contribuir para a escolarização dos estudantes. De acordo com o Censo Escolar 2025, 96,6% das escolas municipais do Ceará possuem estudantes da Educação Especial e 87,5% contam com itens de acessibilidade registrados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

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Fortaleza amplia atendimento especializado

Entre as redes municipais do Estado, Fortaleza apresenta uma das maiores concentrações de matrículas da Educação Inclusiva do país. Segundo o Censo Escolar 2025, a capital cearense possui a terceira maior matrícula de estudantes da Educação Inclusiva entre os municípios brasileiros.

O atendimento especializado é oferecido em 100% das escolas municipais de Fortaleza, ampliando a presença do AEE na rede pública de ensino.

Projeto busca complementar o AEE em Itaitinga

Na Região Metropolitana de Fortaleza, o município de Itaitinga criou uma iniciativa para complementar o atendimento oferecido pelo AEE. O Atendimento Educacional Inclusivo (AEI), instituído em julho de 2025, está presente atualmente em 24 das 30 escolas da rede municipal.

Segundo a Secretaria de Educação do município, a iniciativa foi criada diante do aumento de diagnósticos de deficiências e neurodivergências. Atualmente, Itaitinga possui 1.217 crianças matriculadas na Educação Especial. A maior parte, segundo a coordenação do projeto, possui diagnóstico de autismo.

O programa prevê acompanhamento individualizado por profissionais de psicopedagogia e pedagogia. Nas escolas que possuem mais de 80 estudantes com deficiência, a equipe é ampliada.

Além do acompanhamento pedagógico, o projeto busca aproximar as famílias das escolas. Um documento registra os desafios e avanços de cada estudante e é compartilhado com pais ou responsáveis, permitindo acompanhar o desenvolvimento para além do plano de aprendizagem formal.

A coordenadora do AEI, Adriana Aguiar, destaca que a proposta é trabalhar não apenas com a garantia da matrícula, mas com o desenvolvimento dos estudantes e sua participação no ambiente escolar.

Desafios ainda permanecem

Para a psicopedagoga Luciana Bem, os números mostram avanços na garantia dos direitos dos estudantes autistas, mas também revelam que ainda existe uma demanda que não é totalmente atendida.

Segundo ela, o trabalho de inclusão envolve adaptações curriculares e pedagógicas, mas também mudanças na comunicação, na avaliação dos estudantes e no suporte oferecido aos profissionais que acompanham os alunos.

A especialista também aponta diferenças entre as redes pública e privada. Segundo Luciana, enquanto escolas particulares têm buscado se adaptar às demandas apresentadas pelas famílias, as redes públicas avançam à medida que aumentam o conhecimento sobre o autismo e outras condições relacionadas à neurodivergência.

Dados do IBGE citados pelo Diário do Nordeste mostram que as escolas públicas do Ceará possuem mais Salas de Recursos Multifuncionais e profissionais de apoio para estudantes com deficiência do que as instituições privadas. Entre as escolas públicas, 45% possuem essas salas e 48,2% contam com profissionais de apoio. Na rede privada, os percentuais são de 14,8% e 3,3%, respectivamente.

Formação dos profissionais é um dos principais desafios

Apesar da ampliação da estrutura, especialistas ressaltam que a existência de profissionais de apoio não é suficiente. Também é necessário investir na formação e capacitação de professores e demais integrantes da comunidade escolar.

Para Luciana Bem, profissionais preparados, estrutura adequada e recursos pedagógicos são fundamentais para que a política de inclusão deixe de ser apenas uma garantia formal e seja aplicada de maneira efetiva nas escolas.

A psicopedagoga também chama atenção para estudantes autistas que necessitam de maior nível de suporte. Segundo ela, esses alunos podem demandar metodologias específicas, profissionais com formação mais estruturada e recursos pedagógicos adaptados às suas necessidades.

O cenário mostra que o Ceará avançou na ampliação do acesso e do atendimento especializado, mas ainda enfrenta o desafio de transformar a presença dos estudantes nas escolas em uma inclusão que também garanta participação, aprendizagem e desenvolvimento.