Jovens que fumam diariamente cigarros eletrônicos com nicotina podem apresentar perdas na capacidade respiratória e dilatação dos vasos sanguíneos. A constatação faz parte de um estudo publicado no último dia 21 de outubro na JAMA Network, plataforma e consórcio de periódicos médicos revisados por pares publicada pela American Medical Association.
A função vascular e a aptidão cardiorrespiratória foram menores nos indivíduos que usaram os chamados vapes com nicotina em comparação com aqueles que nunca usaram cigarros eletrônicos nem convencionais. Além disso, os pesquisadores constataram que as perdas registradas foram muito similares às observadas em jovens que usaram tabaco comum.
A análise intitulada "Função vascular e aptidão cardiorrespiratória em adultos que usam cigarros eletrônicos com nicotina" acompanhou 58 jovens adultos entre julho de 2023 e abril de 2025, todos sem doença cardiovascular conhecida ou fatores de risco importantes. Desse total, 17 indivíduos usaram diariamente apenas vapes com nicotina, 19 fumaram somente cigarros convencionais e o grupo de controle contou com 22 participantes que não usaram nenhum dos dois.
Foram avaliadas inicialmente a função vascular, por meio da dilatação mediada pelo fluxo e da reatividade da artéria carótida, e a aptidão cardiorrespiratória, medida por meio de respostas ventilatórias, metabólicas e cardíacas durante o teste de esforço cardiopulmonar máximo. Adicionalmente, foram realizados testes de atividade física para examinar a capacidade do organismo e a reação diante de esforço e desempenho físico.
Os resultados indicaram reatividade reduzida da artéria carótida e um consumo máximo de oxigênio menor nos jovens que utilizavam cigarros eletrônicos com nicotina, quando comparados aos participantes que nunca fizeram uso de tabaco ou de vapes. Os pesquisadores destacaram a necessidade de novas investigações para determinar as implicações clínicas a longo prazo, já que se trata de um fenômeno recente.
Segundo o cirurgião vascular Herik Oliveira, membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular, os efeitos dos cigarros eletrônicos nos jovens podem envolver condições graves ao afetar a aptidão cardiorrespiratória e elevar o risco de eventos cardiovasculares. O especialista aponta o desenvolvimento de hipertensão arterial, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral, doença arterial periférica e até mesmo aneurismas.
O médico explica que a nicotina provoca o aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca, gerando estresse nos vasos, especialmente nas artérias coronárias, o que pode favorecer a inflamação e a formação de trombos. Além disso, ocorre o enfraquecimento da parede arterial devido ao processo inflamatório e às alterações na coagulação, ressaltando que as lesões nos vasos sanguíneos aparecem mesmo sem sintomas nos mais jovens.
O consumo é frequentemente impulsionado pela falta de conhecimento e por uma falsa sensação de que o vapor seria inofensivo, além da influência de amigos, redes sociais e festas. Os líquidos e aerossóis possuem aromatizantes doces que disfarçam o gosto e a sensação da nicotina na garganta, enquanto o design moderno facilita o porte discreto em escolas e eventos.
No Brasil, embora a venda seja proibida desde 2009 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2024, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, aponta que 29,6% dos estudantes entre 13 e 17 anos já experimentaram cigarro eletrônico. No levantamento anterior, de 2019, o índice era de 16,8%, evidenciando a alta popularização entre os mais jovens.
O tratamento para deixar o vício envolve uma abordagem multidisciplinar com psicólogos, pneumologistas e pediatras, podendo incluir terapia de reposição de nicotina em casos mais intensos. Mudanças na rotina, prática de exercícios físicos, aumento do consumo de água e eliminação de gatilhos também são recomendados, sendo o atendimento gratuito oferecido pelo Sistema Único de Saúde por meio do Programa Nacional de Controle do Tabagismo nas Unidades Básicas de Saúde.