O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia que a saída do senador e ex-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro do território nacional deve voltar a elevar a tensão diplomática entre o Brasil e os Estados Unidos. Derrotado no segundo turno da eleição presidencial realizado no último domingo, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro deixou o país na madrugada da última quarta-feira pela fronteira com a Argentina. Acompanhado da esposa e das duas filhas, ele embarcou em seguida rumo aos Estados Unidos e planeja conceder uma entrevista coletiva à imprensa para detalhar os motivos da viagem, além de formalizar um pedido de asilo político ao governo norte-americano.
O episódio ganha maior dimensão diante da suspeita de envolvimento do governo de Donald Trump na operação de saída do parlamentar. De acordo com Simón Levy, advogado mexicano ligado à administração norte-americana, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, teria arquitetado a fuga. Rubio é visto pelo Palácio do Planalto como o principal representante da ala ideológica da Casa Branca que articula ações contra o Brasil. O secretário mantém proximidade com Eduardo e Flávio Bolsonaro e já criticou publicamente o presidente Lula em diversas ocasiões.
A esse cenário soma-se a proximidade das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, conhecidas como midterms, marcadas para a próxima terça-feira. Pesquisas de intenção de voto apontam que o Partido Republicano corre o risco de perder o controle de pelo menos uma das Casas do Congresso. Interlocutores do governo brasileiro avaliam que uma eventual derrota nas urnas poderia ampliar a pressão política sobre Trump e torná-lo mais inclinado a adotar medidas de retaliação contra países cujos governos não sejam seus aliados.
O líder norte-americano já se manifestou duas vezes sobre a eleição presidencial brasileira e, um dia após o pleito, alegou sem apresentar provas que o resultado pareceu uma eleição fraudulenta. Apesar da declaração de que a disputa transmitiu uma imagem negativa, Trump também afirmou que gosta de Lula e mantém uma boa relação com ele. O governo brasileiro optou por não reagir à manifestação para evitar alimentar polêmicas, sustentando que os principais atores políticos globais e da direita sul-americana reconheceram imediatamente a vitória do petista.
A saída do país ocorreu logo após Flávio Bolsonaro ser intimado a entregar seus passaportes à Polícia Federal. A notificação ocorreu no âmbito de uma investigação que apura supostos crimes de lavagem de dinheiro e evasão de divisas em empresas de apostas e plataformas de pagamento. O pedido de apreensão foi formulado pela corporação e determinado pelo ministro Alexandre de Moraes, relator do inquérito no Supremo Tribunal Federal. A medida teve como base um vídeo divulgado na sexta-feira anterior pelo deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, no qual afirmava que o irmão deveria deixar o Brasil para evitar investigações após perder a imunidade parlamentar.
Apesar das perspectivas de recrudescimento nos atritos bilaterais, auxiliares de Lula acreditam que o episódio não impede a busca por uma relação pragmática com a administração norte-americana. Integrantes do governo ponderam que os Estados Unidos já abrigaram outros nomes do bolsonarismo sem interromper os canais de diálogo. A avaliação interna é de que Brasília e Washington compartilham interesses fundamentais em áreas como comércio e segurança pública, e que uma ruptura diplomática atenderia apenas aos interesses de setores extremistas e ideológicos de ambos os países.
Fontes ligadas às negociações sobre o sobretaxamento de até 37,5% aplicado pelos Estados Unidos a produtos brasileiros exportados desde julho indicam que o asilo a Flávio não altera as conversas técnicas em andamento. Após reuniões bilaterais no fim de setembro à margem da agenda do G20, não há novos encontros ministeriais previstos. Além do tarifaço comercial, o governo brasileiro ainda precisa conceder o agrément oficial para a efetivação de Daniel Perez como embaixador dos EUA no Brasil, processo que o Planalto afirma conduzir com critérios técnicos e sem pressa.