O feminicídio é apontado como o último degrau de um ciclo contínuo de violência contra a mulher. A avaliação é de Jeritza Braga, supervisora do Núcleo de Enfrentamento à Violência contra a Mulher da Defensoria Pública do Ceará. A partir da experiência no atendimento a vítimas, ela explica no quinto episódio do podcast Além da Ocorrência que esses crimes não necessariamente começam com uma agressão física direta. Antes do extremo, podem existir comportamentos de violência psicológica e moral que se agravam de forma gradual ao longo do tempo.
A conversa é conduzida pela repórter Luana Severo e aborda os caminhos necessários para interromper a escalada da violência. O episódio discute os sinais de alerta, as dificuldades enfrentadas por quem tenta romper relações violentas e os desafios para garantir o funcionamento adequado da rede de proteção. A edição também traz o relato de Elisângela Santos Gomes, que sobreviveu a uma tentativa de feminicídio cometida pelo ex-companheiro em Fortaleza e teve a orelha decepada e posteriormente reimplantada em um hospital.
Durante a entrevista, a supervisora do Nudem chama atenção para a naturalização de comportamentos machistas que antecedem situações mais graves. Segundo ela, a violência pode surgir em atitudes cotidianas, a exemplo de piadas, controle excessivo e imposição de papéis dentro do ambiente doméstico. A agressão costuma se desenvolver de forma progressiva, iniciando com abusos psicológicos e morais, avançando para empurrões e agressões físicas até atingir o risco de morte.
Os dados da Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública do Ceará mostram que 29 mulheres foram vítimas de feminicídio no estado entre janeiro e setembro de 2026. Desse total, 24 foram mortas com o uso de armas brancas ou outros meios. Na entrevista, a representante da Defensoria Pública também aponta a necessidade de ampliar a participação feminina nos espaços de decisão para fortalecer a elaboração de leis e políticas públicas voltadas à proteção.
A rede de atendimento e proteção disponibiliza canais específicos para denúncias de violência contra a mulher, que podem ser acionadas tanto pelas vítimas quanto por familiares, amigos, vizinhos ou qualquer pessoa com conhecimento da situação. O serviço Ligue 180 funciona 24 horas por dia com atendimento gratuito e orientação, contando também com contato via aplicativo de mensagens pelo número (61) 9610-0180. Em situações de risco imediato e emergência, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo número 190.
Produzido pela editoria de Segurança do Diário do Nordeste, o podcast Além da Ocorrência conta com oito episódios nesta primeira temporada para aprofundar temas que vão além do plantão policial. A apresentação e a roteirização são da repórter Luana Severo, com edição de conteúdo e de áudio do jornalista Emerson Rodrigues. Os episódios estão disponíveis na plataforma Spotify e nos demais canais oficiais de áudio do veículo.