Um novo levantamento realizado pelo Climate Impact Lab, ligado ao Instituto de Ciência e Sustentabilidade da Universidade de Chicago, estima que o atual episódio de Super El Niño poderá provocar 451 mil mortes adicionais relacionadas ao calor em diferentes regiões do mundo entre junho de 2026 e fevereiro de 2027.
A projeção considera o impacto das temperaturas acima do normal associadas ao fenômeno e compara os dados com a média de mortes registrada entre 1996 e 2025. O estudo utiliza métodos revisados por pares para analisar a relação entre temperatura e mortalidade em 24.378 regiões e combina essas informações com previsões de temperatura para os meses seguintes.
Brasil está entre os países mais afetados
Segundo as projeções, os países com maior número de mortes adicionais relacionadas ao calor devem ser Nigéria, Indonésia, Sudão, Índia e Brasil. No caso brasileiro, a estimativa é de aproximadamente 13,3 mil mortes adicionais no período analisado.
Os pesquisadores ressaltam que a estimativa se refere especificamente às mortes relacionadas ao aumento do calor. Outros impactos provocados pelo El Niño, como secas, incêndios florestais, enchentes e alterações no regime de chuvas, podem gerar consequências adicionais que não estão incluídas nesse número.
A projeção de 451 mil mortes considera todo o período entre junho de 2026 e fevereiro de 2027. Para o intervalo de setembro de 2026 a fevereiro de 2027, o número projetado é menor, pois parte das mortes estimadas já está contabilizada nos meses anteriores. Os pesquisadores também indicam que os impactos sobre a mortalidade podem continuar após fevereiro, à medida que o fenômeno evoluir.
Medidas podem reduzir os impactos
O levantamento também aponta medidas que podem ajudar a diminuir o número de mortes durante períodos de calor extremo. Entre elas estão sistemas mais precisos de previsão e alerta, criação de centros de resfriamento, reforço das equipes de unidades de saúde nos horários de maior temperatura e medidas de proteção para trabalhadores que atuam ao ar livre.
Para os pesquisadores, o atual episódio também oferece uma perspectiva sobre os efeitos do aquecimento global nas próximas décadas. O estudo descreve o Super El Niño como um “cartão-postal do futuro”, porque as temperaturas observadas em algumas regiões se aproximam de condições que, segundo as projeções climáticas, poderão se tornar mais comuns cerca de 20 anos à frente.
A coautora do estudo, Tamma Carleton, defende que o aumento da capacidade de resposta a emergências e a melhor distribuição dos recursos podem reduzir o número de mortes no curto prazo. Ao mesmo tempo, os pesquisadores destacam a necessidade de investimentos em medidas permanentes de adaptação para lidar com temperaturas extremas que podem se tornar mais frequentes.
Risco também para a segurança alimentar
Os efeitos do El Niño não devem se limitar às temperaturas. O Programa Mundial de Alimentos (PMA) estima que o fenômeno possa levar quase 50 milhões de pessoas à fome aguda, em razão de impactos sobre a produção agrícola, disponibilidade de alimentos e preços. A organização afirma que ações antecipadas, como apoio aos agricultores, assistência financeira e sistemas de alerta, podem ajudar comunidades vulneráveis a se preparar para os impactos.
O relatório do Climate Impact Lab ainda será submetido a uma revista científica para revisão por pares. Os pesquisadores afirmam que as projeções serão atualizadas conforme o El Niño avance e novas previsões de temperatura estejam disponíveis.